E aí, amigos! A muito tempo estou devendo a biografia deste grande mestre do Jiu-Jítsu, o reinventor da arte suave, Hélio Gracie. De todos os lutadores existentes por aí, provavelmente ele foi o maior. Independente da época em que viveu, ele enfrentou os melhores de seu tempo. Sua filosofia de vida pega um Jiu-Jitsu voltado para auto-defesa. Hélio disse certa vez que seu Jiu-Jitsu era pra briga e quem quizesse ser atleta que fosse para o Judô. Polêmicas à parte, Hélio Gracie é um exemplo de dedicação. Sua vida foi toda voltada para a arte suave. Espero que apreciem mais esta biografia que é fruto de pesquizas em livros e na iternet. Nossa intenção é apenas ter, em um único lugar, fonte de consultas para atletas, professores e praticantes em geral. Boa pesquiza e obrigado a todos que contribuiram com nosso blog:
* * *
Hélio Gracie foi o filho caçula de Gastão Gracie e na infância foi uma criança frágil, fisicamente falando. Dizem que quando ele corria um lance de escada desmaiava e ninguém descobria o motivo. Aos quatorze anos, ele foi morar com seus irmãos mais velhos que viviam e ensinavam Jiu-Jitsu em uma casa no bairro Flamengo no Rio de Janeiro. Seguindo as recomendações do seu médico, Hélio passaria os próximos anos, limitado a apenas observando seus irmãos ensinar, pois não descobriram o motivo de seus desmaios. Carlos, muito preocupado com a saúde de seu irmão mais novo, não o deixou praticar o Jiu-Jitsu. E Hélio ficava ali, o dia inteiro, apenas observando as aulas. Um dia, quando Hélio tinha 16 anos, seu irmão Carlos estava atrasado para uma aula particular com Mario Brandt, na época, diretor do Banco do Brasil. Hélio, que era um grande observador e tinha decorado as lições básicas apenas de ver de seus irmãos ensinando ofereceu-se para iniciar a aula. Quando a aula acabou, Carlos apareceu e pediu desculpas por seu atraso. O estudante então respondeu: “Não tem problema. Gostei muito do treinamento com Hélio e, se você não se importa, eu gostaria de continuar a aprender com ele”. Carlos concordou, e Hélio tornou-se um instrutor. Naquele momento, Carlos ficou muito feliz ao perceber que os desmaios que atormentaram Hélio a maioria de sua vida haviam desaparecido e que Hélio poderia ajudá-lo com as aulas particulares para que ele pudesse dedicar-se à gestão das carreiras de seus irmãos e ao estudo da nutrição e outros assuntos exotéricos. No entanto, Carlos não poderia imaginar o impacto colossal que seu irmão mais novo teria no mundo das artes marciais.
Quando Hélio começou a ensinar e praticar, percebeu que, devido à sua compleição física frágil, muitas das técnicas japonesas que ele tinha aprendido eram difíceis para ele executar. Ansioso por fazer com que as técnicas funcionassem para ele, começou a modificá-las para acomodar seu corpo fraco. E está aí a grande sacada de Hélio, o Jiu-Jitsu pode ser modificado, atraves das alavancas, para qualquer tipo físico. Enfatizando o uso de alavancagem e tempo sobre a força e velocidade, Hélio adaptou o ”Kano Jiu-jitsu” (Judô) e por tentativa e erro, desenvolveu o que hoje é conhecido como Gracie/Brazilian Jiu-Jitsu. Este processo de adaptação contínua ele levou para o resto de sua vida. Muitos membros da família Gracie e outros profissionais contribuíram para o desenvolvimento do Jiu-Jitsu. Mas nenhum desses esforços pode ser comparado ao papel de Hélio Gracie. Seus oitenta anos de dedicação ininterrupta para o aprimoramento do jiu-jitsu, seu trabalho como professor para milhares de estudantes, a notoriedade e a dificuldade de suas lutas, sua adesão estrita à dieta Gracie, o método de ensino que ele desenvolveu, e a criação de um nunca antes visto estratégia defensiva são inigualáveis na história da arte, e o colocam como o criador de um novo estilo. Para provar a eficácia do Jiu-Jitsu, os irmãos Gracie originais, desafiaram abertamente todos os durões e valentões que se diziam lutadores no Brasil. Essas lutas eram geralmente contra adversários muito maiores e mais fortes, a fim de provar que era possível para uma pessoa pequena para se defender contra qualquer tipo de agressor. Usando essas lutas como experiências científicas, Hélio Gracie desenvolveu uma estratégia de combate completo, projetado especificamente para trabalhar contra adversários mais fortes e mais pesados. Mais tarde ele também desenvolver um método de ensino inovador, que permitiu a qualquer pessoa, mesmo aqueles que não são atleticamente dotados aprenderem jiu-jitsu.
Hélio quedando o irmão Carlos
.jpg)
Em 1938, Hélio Gracie decidiu se aposentar do mundo da luta profissional por não concordar com a ênfase que os promotores estavam colocando em entretenimento ao invés de realismo. Ele se recusou a aceitar as lutas que foram decididas em critérios subjetivos, tais como pontos ou as decisões dos juízes. Mantendo-se fiel aos seus princípios originais, ele insistiu que as lutas deveriam ser decididas apenas por submissão ou perda de consciência. Mesmo saindo do cenario da luta profissional, Hélio Gracie sempre se disponibilizou a lutar, em particular, contra qualquer um que duvidou da eficácia de sua arte. Para os próximos 13 anos Hélio iria dedicar-se ao desenvolvimento de um método de ensino único. Durante estes anos, ele ensinava em uma média de 30 aulas particulares por dia em seu apartamento na Praia do Flamengo. Em 1951, Hélio Gracie fez uma incrível retorno quando uma delegação japonesa de mestres de Judô chegou ao Brasil. Esta delegação incluía o peso pesado e campeão mundial Masahiko Kimura. Aos 39 anos, Hélio teve uma de suas performances mais brilhante contra Yukio Kato, um faixa preta quinto grau de Judô do Kodokan. Esta luta foi realizado na Arena Ibirapuera, em São Paulo. Veja abaixo esta batalha de Hélio vs Kato:
Mesmo não desistindo, o irmão de Hélio, Carlos decidiu intervir e interromper a luta dando então a vitória ao japonês. Tremendamente impressionado com a técnica de Hélio, os mestres japoneses convidaram-no para ir ao Japão e ensinar. Foi um reconhecimento importante para Hélio que dedicou sua vida para o refinamento da arte-suave.
.jpg)
Por fim, a mais marcante mudança filosófica colocada por Hélio foi diretamente derivada do seu foco em combates reais: A valorização da defesa. Segundo a filosofia de Hélio, um homem forte poderia forçar aberturas no seu adversário impondo suas técnicas através da vantagem física. Um homem fraco não poderia seguir a mesma estratégia, e deveria, portanto, defender.
O Globo

Hélio resume sua filosofia:
“O meu Jiu-Jitsu é uma espécie de ratoeira. A ratoeira não corre atrás do rato. Mas, quando o rato bota sua garra no queijo, a armadilha dispara. Toda agressão se encaixa num tipo de defesa. É a agressão que define o tipo de golpe.”
“Se você perdeu, é porque cometeu um erro, se você não cometer nenhum erro, você não perde. Eu luto para não perder! Eu nunca entrei em uma luta pensando em ganhar. Meu quadro mental é diferente – Eu entro pensando em não perder ”
“No meu caso, lutando pra não perder você assume uma postura defensiva e deixa o adversário tentar. Ele é o único mantendo a pressão, ele é o único agindo, e ele é o único errando e você deve estar pronto para capitalizar sobre qualquer erro que ele cometa, e possivelmente terminar a luta ali. Eu tiro vantagem dos erros dele, da sua ansiedade em terminar a luta”
“Se você não perder, você venceu. Esta filosofia está imbuída no Jiu-Jitsu Gracie porque essa é a minha natureza. Eu sempre penso “Por que eu deveria atacar?”. Essa é minha teoria e a base da minha arte marcial. Quando você luta pra não perder você luta de uma maneira diferente de quando você luta para ganhar. Quando você está defensivo, você sempre tem a chance de atacar, mas quando você ataca você se expõe à contra-ataques”.
“Eu queria fazer as mesmas coisas que meu irmão Carlos fazia, mas eu não era tão bom atleta como ele era. Por isso, foi impossível para mim lutar do mesmo jeito que ele lutava. Eu tive que modificar as técnicas para então poder fazer, o que significava que agora qualquer um poderia fazer, porque eu era uma pessoa muito fraca e nada atlética. Em vez de saltar do telhado do segundo andar, eu construí uma escada e desci. No final, o resultado é o mesmo, mas eu usei uma maneira diferente, a maneira que eu vislumbrei devido a minha própria limitação física. Instintivamente, ou por necessidade, eu terminei criando uma nova arte que agora é praticada em torno do mundo: O Jiu-Jitsu Gracie. O que Carlos e o resto faziam e aprendiam era mais como o Judô, baseado em técnica, força e explosão. Era mais como um esporte de luta para competições. Meu Jiu-Jitsu é para lutas reais, para lutas de rua.”
Em função da grande disseminação do Jiu-Jitsu do mundo, parte das técnicas e da filosofia de Hélio foram diluídas. Seguramente sua filosofia é bastante lógica do ponto de vista da defesa pessoal, no entanto, como ele mesmo afirmava, ineficiente para situações de competição esportiva, onde havia limites de tempo e contagem de pontos. Nessa situação, não haveria como esperar tempo o suficiente para o erro do adversário, e por conseqüência, oponentes atleticamente mais desenvolvidos levariam grande vantagem, o texto abaixo resume o pensamento de Hélio sobre o Jiu-Jitsu esportivo:
“O Jiu-Jitsu que criei foi para dar chance aos mais fracos enfrentarem os mais pesados e fortes. E fez tanto sucesso, que resolveram fazer um Jiu-Jitsu de competição. Gostaria de deixar claro que sou a favor da prática esportiva e da preparação técnica de qualquer atleta, seja qual for sua especialidade. Além de boa alimentação, controle sexual e da abstenção de hábitos prejudiciais à saude. O problema consiste na criação de um Jiu-Jitsu competitivo com regras, tempo inadequado e que privilegia os mais treinados, fortes e pesados. O objetivo do Jiu-Jitsu é, principalmente, beneficiar os mais fracos, que não tendo dotes físicos são inferiorizados. O meu Jiu-Jitsu é uma arte de autodefesa que não aceita certos regulamentos e tempo determinado. Essas são as razões pelas quais não posso, com minha presença, apoiar espetáculos, cujo efeito retrata um anti Jiu-Jitsu.”
Abaixo um video completo da biografia do Grande Mestre Hélio Gracie:
Fonte: gracie miami/livro: Carlos Gracie, o criador de uma dinastia/blog tonyferraz
Nenhum comentário:
Postar um comentário